 * Estou querendo voltar a escrever pequenos policiais. Para quem ainda não conhece esse meu lado "a vida como ela é", aproveito para ressucitar esse aqui... Wait Until Tomorrow
Ali, chupando o meu pau, Vera me lembrava um pássaro. Desses que ficam futucando com seus bicos os troncos e galhos para construir ninhos.
Há um mês eu a havia prendido. Investigávamos uma puta que aplicava o Boa Noite em turistas otários, num inferninho da Prado Junior. Vera saiu da boate com um holandês, ou filandês, ou dinamarquês. Sei lá! Era um cara gordo, grande e com a pele em fogo. O cara já estava quimicamente debilitado. Ao revistar a vadia encontrei pequenas quantidades de Haldol e de Lorax. Dei voz de prisão a Vera e ela respondeu com pouco caso: “Wait until tomorrow.” Ela tinha certeza de que o gringo estava derrubado demais pra fazer a ocorrência. “Quer dar show, vagabunda?” Enfiei-lhe três tapas nos cornos e a coloquei na viatura. Só que o Negão, meu parceiro, mostrou os comprimidos e o gringo armou um barraco no meio da rua. Mas na DP, o cara amarelou e não quis fazer a ocorrência e nem o exame toxicológico. E como aparentemente Vera não tinha tido tempo de aplicar o golpe, tivemos que liberar os dois. Dias depois, ela me ligou para me agradecer. Deve ter pensado que convenci o gringo a esquecer o caso, pensei. E agora estava ali, um pássaro fazendo o seu ninho. Estávamos no meu apartamento. Que pássaro seria? Eu pensava nisso, quando o celular dela começou a tocar. Vera olhou pra mim, como se quisesse permissão para atender. “Chupe.”, eu, seu amo-senhor. Ela se pôs em ação de novo. Mas o celular continuou, urgente, e ela verificou quem estava ligando. “Continue, vamos!” “É a minha irmã. Ela está com o meu filho. Pode ser urgente.”, e atendeu: “Fala, Ana. O que você quer? Eu não posso falar agora...Ana, eu não posso falar...não posso, Ana...Ana...PORQUE EU ESTOU CHUPANDO UM PAU PORRA!...o quê?!!!!!!!” Ela olhou pra mim, assustada, e concluiu: “O meu ex apareceu lá e está querendo levar o meu filho.” E lá fui eu para a kitinete, em Copacabana, onde a tal irmã vivia.Quando chegamos, a tal da Ana estava acompanhada de um homem alto e parrudo. O sujeito dava dois de mim, mas ambos nos receberam com os olhos arregalados. “Você prometeu que não traria ninguém aqui!”, gritou a irmã, que parecia ser a cópia xérox da Vera. Sobre a mesa, duas carreirinhas de coca. Vera olhou pra mim e gritou. “Pode prender esses dois. São eles que me fornecem a droga.” Imediatamente compreendi tudo. Ela sabia que a irmã ligaria para lhe avisar que o bagulho havia chegado. Queria sacanear a irmã e logo fiquei sabendo o motivo.Imediatamente, Ana voou pra cima da irmã e as duas começaram a se esbofetear. Imediatamente o sujeito caminhou para o meu lado e saquei a minha ponto 40. Ele recuou. Era forte, mas não era burro. “Meu irmão, o negócio é o seguinte. Ela está bolada comigo porque...” Neste momento, Vera gritou: “Você ainda trás o meu filho pra este lugar, onde você faz as suas sacanagens, seu puto?” Foi nesse instante que percebi a presença do menino, dormindo numa cama de armar. O moleque não tinha mais do que um ano e dormia a sono solto. Apesar de todo o barulho. “O que eu podia fazer? Chego em casa e vejo o moleque sozinho.”, para mim: “Nós nos separamos ontem. Hoje fui lá pegar o resto das minhas coisas e encontro o moleque sozinho...”As duas continuavam se embolachando.Ana: “Você é muito puta mesmo! Não sabe perder um homem!” Vera: “Vou te mostrar, sua traíra do caralho!” O homem: “Ela está bolada porque eu vim morar com a irmã dela. Mas não estava mais dando certo e...” Enquanto o homem falava, passei a prestar a atenção na criança. “...ela armou essa crocodilagem pra se vingar. Ela sabe que estou na condicional. Segurei um dezesseis e um cento e oitenta...” Deixei o cara falando sozinho e me aproximei da criança. Quando coloquei a mão no pescocinho do moleque, estava frio. Os três olhavam pra mim como três estátuas de vagabundos. “O que essa gente fez com o meu filho?!!!!!!!!!”, Vera explodiu. Tinha que sair dali o quanto antes e lentamente comecei a me dirigir à porta. Vera segurou o meu braço. “Você tem que prender este homem...” Empurrei a vadia e “Não vou prender ninguém. Vá se foder! Você ainda está no lucro. Eu devia encher teus cornos de porrada pra você aprender nunca mais usar um polícia.” Quando abri a porta pra sair, Vera correu atrás de mim. “E que tipo de polícia é você, seu merda?!!!!” Não podia ouvir aquilo sem devolver: “Você aplicou o Boa Noite no próprio filho pra cair na viração. Que tipo de ser humano é você?” Vera ficou lá, com os lábios tremendo e os olhos cheios d´água. Aproveitei para concluir: “Tu é mesmo rápida no gatilho! O cara te chutou ontem e tu já armou pra cima dele hoje. Tu não valhe a calcinha que usa.” Dei as costas para Vera e caminhei para o elevador. Mas ainda pude ouvi-la dizer: “A vingança nem sempre pode esperar.”  A maioria dos turistas que vem ao Rio estão atrás de praia. Mas é cada vez maior o número de interessados em passeios alternativos. Isso é uma tendência mundial, como já falei no post A Gente Tem Sede De Quê?, sobre a minha passagem por Lisboa, lembra? E para atender a essa demanda, vários setores passaram a oferecer passeios totalmente na contra-mão dos pontos turísticos convencionais. E tem para todos os gostos: circuito literário, circuito histórico, circuito da Floresta da Tijuca, circuito sobrenatural (Isso mesmo. Um passeio a imóveis onde se acredita residirem fantasmas famosos), circuito das fortificações (e existem muitas no Rio e nos arredores), circuito das favelas, etc. O mais interessante, para mim, e que deve ser feito antes de qualquer outro é o passeio promovido por professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro pelo Centro da Cidade, durante o qual não só se aprecia os vários tipos de arquitetura existentes, como também, conhecendo lugares importantes na história do país ocorridos no coração de uma cidade que já foi capital federal. Esses passeios são grátis e ocorrem aos domingos. Os interessados devem ir com disposição, pois costumam durar perto de seis horas, com pausa para lanche e almoço. O ponto de partida é o Mosteiro de São Bento, onde ocorrem missas dominicais com cantos gregorianos. Vou repetir: missas com cantos gregorianos em pleno Centro do Rio.  E o passeio desce para a avenida Rio Branco e a primeira das muitas paradas é em frente a este prédio, que serve como abrigo de valores do Banco Central. Por questão de segurança, não pude fotografá-lo de perto. Já passei por este prédio umas quinhentas vezes e nunca lhe prestei muita atenção. Aliás, uma das vantagens desse passeio é fazer os cariocas ficarem mais atentos a sua cidade. E na charmosa bagunça de estilos (nem sempre de bom gosto) no Centro do Rio, o antigo e o novo, vão convivendo, nem sempre harmoniosamente, lado a lado. E a gente vai caminhando e garimpando as pérolas.    E também vai conhecendo as histórias interessantes de outros pontos pelos quais você passa mil vezes, sem ter a mínima noção de que aquele lugar teve um passado. Por exmplo, sempre achei curiosa a deformação no traçado da avenida Marechal Floriano, em frente à Igreja de Santa Rita. Pois a verdade é que a igreja seria demolida na ocasião da reforma da avenida. Mas os fieis decidiram fazer uma vigília em volta do templo para impedir sua demolição. Para evitar maiores atrasos na conclusão da reforma, o prefeito da época decidiu manter essa jóia que é a Igreja de Santa Rita que tem tantos seguidores no Rio. Aliás, a muvuva na porta da igreja, na foto acima é justamente o pessoal que fazia o passeio.  A Igreja de Nossa Senhora da Candelária é outro ponto pelo qual os cariocas passam apressados (fica bem no coração do mercado financeiro). Não nos damos contas das histórias importantes em que essa linda igreja foi personagem. Histórias bonitas como o final de tarde de 10 de abril de 1984, quando 1 milhão de pessoas se reuniram do seu entorno até as cercanias da Central do Brasil para pedir por eleições diretas. Era o movimento Diretas Já, lembra? Também da triste noite de 4 de abril de 1968, quando a PM baixou o sarrafo em quem saía da missa de sétimo dia pela morte do estudante Edson Luis, morto em 28 de março, durante um confronto entre estudantes e policiais militares, no Restaurante Calabouço. Para impedir que o massacre fosse maior, o padre ordenou que os seus sarcerdotes fizessem um cordão de isolamento na frente do templo, para que os fiéis pudessem se afastar do local em segurança. Além disso, ele mesmo foi para a calçada empunhando um enorme crucifixo, obrigando os policiais a recuarem. E também histórias trágicas como a chacina de meninos de rua, ocorridas numa madrugada do inverno de 1993. Mas essa lembrança, as calçadas não nos deixam esquecer. Masi uma parada: no Paço Imperial, que foi palco do importante Dia do Fico, final do século 19. O prédio amarelado, ao lado é a Assembléia Legislativa, onde nossos digníssimos deputados se esforçam para melhorar o nosso estado. Se de perfil o prédio da Assembléia é bonito, de frente é muito mais. O Palácio Tiradentes, nome oficial da Assembléia, tem também uma visita guiada durante a semana.  A imponente estátua de tiradentes, na frente da Assembléia Legislativa. Ao fundo, a igreja de São José, onde meus pais se casaram. Aliás, a história da cidade, como não podia deixar de ser, também está entrelaçada a minha história...  ...e na área do Mercado fica o casarão, onde funciona o Cais do Oriente, bar onde este blog nasceu. A tragicômica história que resultou na aparição deste site eu já contei aqui, quando o Bala fez um aninho. O próximo passeio deve ser em 05 de abril. Mas pegue mais informações no email: roteirosgeorio@uol.com.br . Eles têm um roteiro noturno, contando a história da boemia da cidade. Esse pretendo fazer em breve. E mandarei notícias...post, é claro! Bom passeio!
 Já disso isso aqui e repito: detesto verão.  Vou repetir: detesto verão.
Mas é nas noites arábicas do verão carioca - e em um número cada vez maior - que vários grupos de ciclistas se organizam para cruzar a cidade. Há os pequenos com no máximo 15 participantes e os grandes, com, às vezes, dezenas. Mas todos se dirigem, silenciosamente, sem poluir o ar e cuidando da saúde, para a beira do mar da zona sul. O meu é esse aí de cima. Em vez de ficar assistindo BBB09, gente de várias classes, condições físicas e idades, se une para passar a noite com amigos, pedalando, papeando e tomando uma água de coco á beira mar.
Tá certo que esse fenômeno, que tem crescido nos últimos anos, não se verifica apenas nas noites do verão. Mas essa é a época do ano que as pessoas se sentem mais estimuladas a pedalar à noite. Os carros ficam na garagem, curtindo o maior desprezo. E certamente, no verão que vem, mais carros serão desprezados. As fotos foram tiradas pelo Horácio da Via Pedal . Se alguém estiver para vir ao Rio e quiser participar, mergulhe no site para saber mais detalhes. Aliás, essas pedaladas são o motivo de os posts ficarem mais escassos. Além de trabalhar muito, acho que mereço esse break. Fui.
 Sempre achei que os cinemas deveriam ter uma antisala, onde os espectadores pudessem deixar suas convicções, verdades, dogmas, crenças e etc. Por exemplo: para se assistir Mamma Mia!, se deveria deixar o mau humor, a seriedade e todos os problemas pendurados nessa sala, assim como para assistir Casablanca, se deveria deixar a falta de romantismo. Sempre admirei o Sean Penn como ator. Para mim, ele estava na galeria dos bad boys do cinema norte-americano, ao lado de Al Pacino, James Dean, Clint Eastwood, De Niro, etc. Por isso, ao saber que um dos grandes machões de Hollywood, o machão que teve a coragem de dar um pontapé na bunda da Madonna, nos anos 80, iria interpretar não apenas um gay, mas um ativista gay, em Milk - A voz da igualdade, minha curiosidade foi aguçada. Pois bem, na terça-feira de carnaval fomos ao cinema assitir a Quem quer ser um milionário?(Slumdog Milionaire). Mas parece que todo o Rio de Janeiro teve a mesma ideia e as filas estavam maiores do que as dos banheiros do Sambódromo. Então, decidi matar a minha curiosidade. E não me arrependi. Foi um prazer encontrar um Sean Penn irreconhecível, interpretando sem exageros, um dos personagens mais controvertidos da história americana: o ativista gay Harvey Milk, assassinado dentro da prefeitura de San Francisco, assim como o próprio prefeito, em 1978. O assassino, um ex-funcionário que havia acabado de ser demitido. Punição pelas duas mortes: quatro anos de prisão!!!! Tal absurdo demorou demais para virar filme. Talvez pelo já tradicional preconceito que sempre imperou em Hollywood. Mas a mesma Hollywood parece que quis reparar o erro ao premiar a produção com dois oscar, ator e roteiro. Quanto ao roteiro, vi poucos dos concorrentes, mas achei o roteiro de VickyCristina Barcelona, mais interessante. Mas o trabalho do roteirista Dustin Lance Black e do diretor Gus Van Sant, passa muito longe da mediocridade. Logo nas primeiras cenas, você já sente que está prestes a assistir um grande filme. Milk começa mostrando cenas reais de batidas policiais em bares gays nas décadas de 50 e 60, época em que a polícia promovia verdadeiros arrastões nestes locais, que geralmente funcionavam em pontos clandestinos e controlados pela máfia. Foi a época em que um cidadão poderia ter vida ou carreira arrasada somente pela suspeita de ser gay. Um período em que o cara só tinha duas opções: ser macho ou ser preso. Essa apresentação serve para justificar Harvey Milk e sua militância, até ser nomeado para trabalhar na prefeitura de San Francisco. E lá encontrar Dan White (o excelente Josh Brolin), seu incompetente opositor, que acaba demitido e se vinga com tiros à queima-roupa. Penn consegue levar muito bem o papel, mantendo o mesmo carisma do ativista gay - embora o mesmo não possa ser dito de outros companheiros seus. Nós nos simpatizamos com ele, torcemos por ele, ficamos tristes com o seu assassinato. Isso se você deixar o preconceito na anti-sala. Conseguimos até morrer de rir de cenas como aquela em que ele se confronta na tv com um pastor moralista. PASTOR: "Eu condeno vocês, gays. Por que praticam sexo e não conseguem se reproduzir."HARVEY: "Mas Deus sabe como nós tentamos."Esse Sean Penn, hein...humpf! Nunca me enganou! Quero dizer, sempre soube que ele é um excelente ator. Em julho de 2006, o site Rate your music publicou esta lista das 100 piores capas de discos de todos os tempos. Eu até até fiz um post sobre o assunto. Mas até hoje, de vez em quando, ainda pipocam em blogs, listas sobre quais seriam as melhores ou piores capas. Para encerrar este assunto por aqui, decidi instituir troféis para a melhor e a pior. Obra Prima Na minha humilde opinião, a melhor capa de todos os tempos é essa do disco da já extinta banda inglesa Free. Foi lançado em 1969, época em que as gravadoras investiam muito nas capas, como forma de vender o produto, o que acabou produzindo verdadeirs obras de arte, como esta. Foi uma época em que, além do conteúdo, comprava-se também pela capa.
A partir da segunda metade dos anos 70, e muito mais depois do aparecimento do Cd, as gravadoras e os próprios artistas passaram a descuidar deste importante item. Esta capa do Free é nota dez em todos os quesitos(criatividade, beleza, bom gosto e perfeita comunhão com o título). Até conheço o conteúdo deste disco, que, por sinal, está aquém da capa. Sem dúvidas, merecia uma moldura.
Diarréia
Desde 2006, continua imbatível a capa deste disco de 1990. Ainda não encontrei nada pior. É uma pena! Conheço o trabalho da Millie e a considero uma grande cantora de soul music. Mas ela deveria ter um pouco de noção e se recusado a pagar este mico. Alguém de sã consciência compraria um cd com esta capa? Ou, pior: imagine você recebendo de amigo oculto algo com tal apresentação. Ou em sua festa de aniversário, você com a boca cheia de bolo, tirando o cd do embrulho! Essa capa é um claro exemplo de marketing assassino. Ela parece dizer: "Você não está vendo Ms. Millie Jackson com diarréia em estado terminal. Você está vendo Ms. Jackson preparando este disco que você está pensando em comprar". Chá de boldo nela!!!!!!!!!!
Fala sério!!!!!!!
Foto de Gail Albert Halaban e que ilustra a abertura da tal matéria da revista New YorkerO título deste post representa a imagem que durante muitos anos se tinha das pessoas que viviam solizinhas. Elas eram minoria e achávamos que se viviam só era porque deveriam ser seres indesejados. Que esse preconceito começou a cair, a partir da década de 90 e que o número de pessoas que vivem só por opção está aumentando incrivelmene no mundo todo, já não é novidade. Que me perdoe Vinícius de Moraes, mas parece que é possível ser feliz sozinho, sim. Pelo menos é o que demonstra essa excelente reportagem da Revista New Yorker, publicada no final do ano passado, mas que por motivo de viagem, só agora falo aqui. A novidade é que um dos mitos que a Revista tenta derrubar é o de que os solitários vivem melhor em cidades pequenas ou quanto maior a cidade, maior a solidão. E para exemplificar isso, eles pegam pesado, tomam como base a maior metrópole do mundo. Uma coisa que sempre me chamou atenção na Big Apple é o número de pessoas sozinhas nas ruas. Mas depois dessa matéria irei olhá-las de outra forma. Por falar em viagem, você acreditou quando falei que daria um tempo nas minhas andanças? Humpf! Você, hein! Francamente! 
 Pedras do Grito e do Feto.
 Mas é que detesto verão. Mas se temos que encará-lo, é melhor fazê-lo com dignidade.
Na Ilha Grande, de preferência, onde tenho passado uns dias. E estou tão cansado e queimado de sol, que por enquanto vou dizer só isso. Mais fotos, no Flickr. Ótimo carnaval a todos e juízo!  Adoro o Rappa! Mas com aquele negócio de viajar pra lá e pra cá, só recentemente pude ouvir o último CD da banda carioca, 7 vezes, lançado em agosto. Conheço todo o trabalho do grupo e são todos bons. Mas nesse eles se superarm. As músicas continuam falando em violência, miséria e injustiças sociais. Aliás, ouvi-los falar sobre isso, não nos dá aquela sensação de que é apenas bacana ou politicamente correto. Outras bandas falam sobre esses mesmos assuntos. Os Paralamas do Sucesso - que eu igualmente adoro -também falam. Mas...sabe como é, o Herbert Vianna foi criado em Brasília, dirige carro importado e usa roupas de grife. A Legião Urbana também falava, mas...sabe como é...o Renato Russo - que Deus o mantenha junto de gente boa como Hendrix, Joplin, Marvin Gaye, Cartola, Elis - também foi criado em Brasília, viveu nos EUA... O Rappa cheira a Lapa, cheira a tensão de se entrar num ônibus de madrugada em certos pontos do Rio, cheira ao medo de se levar uma dura da PM carioca na calada da noite, cheira ao terror de se deparar com uma bala perdida, cheira a favela, cheira a periferia. A primeira música do Cd, Meu Santo Tá Cansado, já vale a compra. Assim como no Cd Rappa-Mundi, ao ouvir Miséria S/A, a gente tinha a impressão de alguém que andava de ônibus e já havia sido perturbado pelos vendedores ambulantes chatos que costumam subir nos coletivos para vender toda a sorte de porcaria, agora você não apenas ouve, mas sente o cansaço do cara que vive numa cidade decandente, abandonada pelas autoridades, oprimida pela ditadura dos espertos e onde a vida humana vale muito pouco. Aliás, todos conhecem a tragédia na carreira desta banda, que teve um ex-membro quase morto (Marcelo Yuka), ao tentar salvar uma moradora do seu prédio, durante uma assalto, em outubro de 2000. Criativos como sempre, a rapaziada do Rappa deu salto a frente neste trabalho, com arranjos espertíssimos, ousados e modernos. Até uma guitarrinha tem um papel de maior destaque, assim como os teclados. Não há no Aurélio uma palavra que traduza esse disco, então vou ficar com brilhante mesmo. Disparado o melhor lançamento de 2008.
 Nota mil!!!!
  Music Playlist at MixPod.com
 Na minha infância, há quinhentos anos atrás, havia uma rádio, aqui no Rio, chamada Mundial-AM. Nessa rádio havia um programa chamado Show dos Bairros, onde cada bairro era representado por uma música. Os ouvintes votavam e, no final, as mais votadas, voltavam. Em minha inocência -as crianças da época eram mais inocentes do que as de hoje - eu torcia pelo meu bairro, o pobre subúrbio do Lins de Vasconcelos. Torcia para que ele fosse representado por uma boa música e recebesse muitos votos. Uma vez, quase pirei de felicidade ao vê-lo chegar ao primeiro lugar dos mais votados, passando lugares como Ipanema e Copacabana. Doce inocência. Só alguns anos mais tardes eu fui compreender que era o jabá recebido das gravadoras que fazia os programadores da rádio escolher quem estaria ou não entre "as mais votadas". Pois bem, em 2005, já quarentão, iniciei este blog. Eu pensava que os tempos de inocência haviam ficado para trás. Mas eu pensava que se escrevesse direitinho, faria sucesso na blogosfera. Achava que as pessoas estavam atrás de qualidade e se eu me esforçasse, conseguria agradar a uma legião de fãs. Burra inocência. Mal sabia eu da legião de gente carente que só frequenta o seu blog para fazer o social; dos leitores-spam, que só aparecem para fazer propaganda do seu site; dos jornalistas despeitados que vivem metendo o pau na mídia tradicional mas que adoram ser paparicados por ela; dos grupinhos de amigos que vivem se elogiando; da gente pretensiosa que acha que está fazendo uma grande revolução em seu site, quando só está repetindo o que a mídia impressa já faz há um bilhão de anos; das pessoas chatas que só passam pelo seu site para dizer alô, implorando para que você apareça no site dela, nem que seja para fazer o mesmo. Enfim, sobrevivi a isso tudo. Mas umas das coisas que mais me chamou a atenção é que, em grande parte, os comentários - na maioria feito por blogueiros - sempre se referiam a um fato pessoal para falar sobre o post. Se o assunto fosse "fazer xixi em lugares públicos", por exemplo, sempre se começava com um..."uma vez EU precisei fazer..." ou "EU vi alguém fazer..." ou "EU quase precisei fazer...". Com as pessoas que comentavam e não eram blogueiras era diferente. A opinião vinha em primeiro lugar. Hoje, isso já não me incomoda. Aprendi que os blogs são um espelho dessa época em que vivemos, onde muitos têm uma necessidade angustiante de se expor, se expressar, se mostrar, se lançar. Todos querem falar; poucos querem ou sabem ouvir. Aliás, há muito escutar é uma arte para a qual pouquíssimos despertam algum talento. Simplesmente estamos desaprendendo a ouvir. E sobre isso que fala A Arte de Escutar, ainda em cartaz no Teatro da Justiça Federal, no Centro do Rio. Peça, que ao meu ver foi a melhor do ano que acabou de acabar. Em pouco mais de uma hora, Amélia Bittencourt, Antonio Fragoso, Carla Faour, Isaac Bardavid, Juliana Guimarães e Patricia Pinho (todos da Companhia Teatral Quem São Esses Caras?), vão mostrando, em diversas esquetes, os apuros, nos dias em que vivemos, de alguém que prefere ouvir a falar, gerando situaçõs dramáticas, cômicas e perplexas. Afinal, numa época em que todos querem falar e poucos querem ou sabem ouvir, imaginem o desafio que é estar vivo para quem é toda ouvidos! A peça foi escrita pela protagonista da peça (a mulher que é só ouvidos), a atriz e, agora, escritora, Carla Four e tem arrancado elogios por onde passa. Após grande sucesso em Sampa, o espetáculo está há meses em cartaz no Rio, onde ficará até 1 de fevereiro(corram!). E aqui vai o site da companhia Quem São Esses Caras, que é um barato! Destaque para a veterana Amélia Bittencourt, que interpreta a senhora faladeira na fila do banco. Aliás, eu tive o privilégio de ter a Amélia no papel de Odete Escarlate, a protagonista, em uma das leituras da minha peça Essa Noite É Verão No Inferno. Ops! Já estou eu falando do meu trabalho e deixando de lado a peça, motivo desse post. Mas, afinal eu também sou blogueiro. E todo blogueiro deveria assistir A Arte de Escutar. E refletir.
Penelope Cruz na pela da louca AlmodovarianaDuas amigas norte-americanas vão passar as férias de verão em Barcelona. Vicky(Rebecca Hall) é centrada, está para se casar com um executivo do mercado financeiro e decidiu ir para a cidade espanhola para terminar sua tese sobre a cultura catalã. Cristina(Scarlet Johansson), é uma atriz que produziu apenas um curta de 12 minutos, está perdida, sem saber o que fazer da vida e tem uma visão...digamos...exótica do amor. Entre elas, existe um pintor, Juan Antônio, (Javier Bardem), que acabara de deixar um relacionamento assassino e quer partir para novas experiências, a fim de esquecer a mulher para a qual ele nasceu. A mulher, Maria Elena(Penélope Cruz), em questão é uma maluca suicida que ama desesperadamente o homem que tenta odiar, ou seja, o pintor. O pintor se envolve com as duas amigas, rendendo diálogos como: Cristina: - Eu estou disposta a me deitar com você esta noite, a não ser que você cometa algum erro. Juan Antonio: - Que tipo de erro? Cristina: - Dizer alguma tolice e usar a cueca errada. Juan Antonio: - E além de encontrar o homem com a cueca certa o que você quer mais da vida? A mulher louca acaba voltando a viver com o marido e se envolve com Cristina. Isso tudo rolando na intensa Barcelona, uma cidade onde amor e paixão estão se cruzando em cada esquina, onde se janta á meia-noite e os atos mais cotidianos são vividos com intensidade, como se não houvesse amanhã. Ah, e o diretor deste filme é um Woody Allen, em sua fase "pegando papel em ventania." Tem chance de a história desse quadrado amoroso dar certo? Tem. Na verdade, o novaiorquino Woody Allen já vem há muito tentando fazer as pazes com o grande público, com histórias que privilegiam mais a trama, personagens mais simpáticos, locações diferentes da sua Nova Iorque natal e diálogos menos intelectualóides. Sem prestígio em Hollywood - que aliás nunca teve - e tendo que lidar com orçamentos cada vez mais apertados, Woody aceitou de bom grado a oferta da prefeitura de Barcelona, de bancar 10% dos custos da produção, caso o filme fosse rodado lá. Não é por coincidência que o filme é quase que uma propaganda turística da cidade. Quase. Allen tem talento o suficiente para não cair nessa baixaria. Mas como um judeu-intelectul-de-Nova Iorque poderia fazer um filme que se encaixasse na atmosfera caliente da cidade espanhola? Talvez bebendo na fonte do maior diretor espanhol da atualidade. A maior virtude de Vicky Cristina... é justamente como Allen conseguiu pegar algumas das características principais da obra de Almodovar (o colorido, a sensualidade, as explosões emocionais e os momentos dramáticos/hilariantes - há coisa mais Almodovariana do que a cena de tiros, protagonizado pela louca Maria Elena, no final? De qualquer forma, Vicky Cristina Barcelona é um filme agradável, bonito de se ver, divertido e moderno. Dá para se esperar mais de um filme. Mas no atual nível das produções cinematográficas, isso já é um ótimo motivo para se correr ao cinema e assistir este que, para mim, foi o melhor filme de 2008. ********* Em tempo: Andou se falando que o Eudardo Paes, novo prefeito do Rio, estaria cogitando a idéia de se fazer uma oferta a Woody Allen para que o cineasta viesse rodar seu filme por aqui. Pois aí vão algumas sugestões de histórias e personagens: 1) Woody Allen é um policial americano aposentado que está de férias na cidade. Ele se interessa pelo caso de vários papparazzis violentamente assassinados e descobre que o serial killer é a Preta Gil; 2) Woody Allen é um famoso escritor e intelecutal novaiorquino de férias na Cidade Maravilhosa e que descobre que, ao invés de judeu, é, na verdade, médium e passa incorporar a Derci Gonçalves; 3) Woody Allen interpreta ele mesmo, vindo ao Rio para filmar. Acaba sequestrado. A polícia descobre que o mandante do sequestro é o ex-prefeito Cesar Maia para desmoralizar o recém-empossado Eduardo Paes e seu padrinho, o governador Sérgio Cabral; 4) Woody Allen termina o seu casamento com uma escritora problemática em Nova Iorque e decide vir ao Rio para incógnito e fugir do assédio da imprensa. Antes da viagem, durante uma briga, sua ex lhe roga uma praga. Ao chegar aqui, o diretor se apaixona e se envolve com a Luana Piovani. 5) Woody Allen é um diretor azarado e decadente. Desesperado atrás de dinheiro, ele vem ao Rio fazer um documentário sobre favelas e violência. Mas encontra a Cidade Maravilhosa mais calma do que uma cidadezinha no interior da China, já que todos os chefes do tráfico de drogas haviam se unido e decidiram encerrar suas atividades criminosas e se dedicar à práica da igoga. E eu terei que fechar esse blog, pois seu título deixará de fazer sentido. Fala sério!!!! No final da semana passada precisei ir a Sampa para resolver certos assuntos pessoais. E como a coisa rolou mais rápido do que imaginei, aproveitei para, além de almoçar na Cantina do Roperto, no Bixiga, comer o famoso Bauru no Ponto Chic e fazer algumas comprinhas básicas, dar um giro nesta cidade pela qual tenho um carinho muito grande. O motivo já expliquei aqui, neste post de janeiro de 2006 que tem o mesmo título deste.  Vitrais do... ...Mercado Municipal, local que, apesar de ter morado nesta cidade, o desconhecia completamente. Mas é que na época- estamos falando dos anos 80 - o Mercado era um local tumultuado, sujo e nada acolhedor, como é hoje. Os turistas fazem a festa. Kássia Kiss, ótima na pele da mãe tirana, em Zoológico de Vidro(Foto da Folha de SP) Aproveitei também para assistir a estréia de Zoológico de Vidro, do graaaande Tenneessee Williams, o dramaturgo responsável por eu adorar e escrever para teatro. Como é tão raro ver um texto deste gênio ser encenado atualmente no Brasil e como nem sei se ele virá para o Rio, resolvi não disperdiçar a chance. Apesar de alguns probleminhas (introdução longa demais, interpretação meio caricata de Kássia Kiss em determinadas passagens e também de Erom Cordeiro, na pele do ambicioso e canastrão Jim O´Connor, por exemplo), a encenação é primorosa, graças ao talento gigantesco de Ulysses Cruz. Zoológico de Vidro foi o primeiro trabalho de Teneessee. Baseada num conto do autor, ela foi encenada pela primeira vez em 1944. Fez sucesso, mas, infelizmente a peça seguinte deste americano genial, morto em 1983, Um Bonde Chamado Desejo, ofuscou completamente a primeira. A Margem da Vida - seu título original - foi pouco encenada no Brasil. Por isso, merece uma ida ao Teatro Sesc Anchieta, onde estará em cartaz até 22 de fevereiro, sexta á domingo, 21 horas sextas e sábados. Poucos dramaturgos entendem tanto da fragilidade humana como Tennessee e conseguem extrair humor e drama de forma tão contundete. Zoológico... fala sobre o drama de Amanda Wingfield, uma matricarca abandonada pelo marido e que vê escapar a última chance de sair do atoleiro financeiro em que a família está, ao tentar aproximar a filha, Laura, hipertímida e deficiente física, de um ambicioso rapaz, Jim, amigo do seu filhoTom, sonhador e infeliz. Embora tenha sido escrita nos anos 40, poderia se passar tranquilamente neste século XXI. E só mesmo os mestres escrevem textos tão atemporais. A iluminação de Domingos Quintaliano é perfeita. A trilha sonora de Victor Pozas merece aplausos, assim como a direção de Ulysses Cruz. Já a interpretação dos atores é irregular. Kássia Kiss está divina como Amanda, apesar de algumas vezes apelar para uma caracterização banal, apostando no patético para fazer o público rir. Kiko Mascarenhas, na pele de Tom Wingfield, é o melhor dos quatro. Impagável tanto como o insatisfeito e beberrão filho de Amanda, que sofre nas mãos da mãe dominadora, que ignora os seus sonhos, como o narrador da história. Karen Coelho também arrasa no papel da sensível e tímida Laura. Erom Cordeiro deixa a peteca cair algumas vezes nas partes mais dramáticas. É previsível e precisa trabalhar melhor o tempo dramático. Bem, não levem este post tão a sério, já que não sou crítico teatral. Mas de uma coisa tenham a certeza: o texto é nota mil! Se eu tivesse ido a Sampa apenas para assisti-lo, já teria valido a viagem. Torço para que venha para o Rio. E quanto o pessoal de Sampa, não deveiram perder essa chance de assistir a um bom espetáculo teatral - coisa rara esses dias. E reservem com antecedência porque está bombando. "No dia 14 de junho de 1972, Ana Maria Nacionovic Corrêa, 25 anos, Marcos Nonato da Fonseca, Antônio Carlos Bicalho Lana e Iúri Xavier Pereira, todos militantes da ALN, estavam almoçando no Restaurante Varella, na Mooca. o proprietário do estabelecimento, Manoel Henrique de Oliveira, que era alcagüete da polícia, telefonou para o DOI/CODI-SP, avisando da presença de algumas pessoas que tinham suas fotos afixadas em cartazes de “Procurados”, feitos na época pelos órgãos de segurança. Os agentes do DOI/CODI, assim que se certificaram da presença dos quatro companheiros, montaram uma emboscada em torno do restaurante, mobilizando um grande contingente de policiais. De imediato, foram fuzilados Iúri e Marcos Nonato. Ana Maria, ainda vivia, quando um policial, ouvindo seus gritos de protesto e de dor, impotente perante a morte iminente, aproximou-se desferindo-lhe uma rajada de fuzil FAL, à queima-roupa, estraçalhando-lhe o corpo. Ato contínuo, os policiais fizeram uma demonstração de selvageria para a população que se aglomerou em volta daquela já horrenda cena. Dois ou três policiais agarravam o corpo de Ana Maria e o jogavam de um lado para o outro, às vezes lançando-o para o alto e deixando-o cair abruptamente no chão. Descobriram-lhe também o corpo ensagüentado, lançando impropérios e demonstrando o júbilo na covardia de tê-la abatido. Não satisfeitos, desfechavam-lhe ainda coronhadas com seus fuzis, como se mesmo morta Ana Maria representasse ainda algum perigo. Da emboscada, conseguiu escapar, ferido, Antônio Carlos Bicalho Lana (morto em 30 de novembro de 1973), testemunha, dos três assassinatos. A população, revoltada com tamanha violência e selvageria, esboçou, dias depois, uma reação de protesto, tentando elaborar um abaixo-assinado que seria encaminhado ao Governador do Estado. Mas, devido ao clima de terror existente no País naquela época, somado ao pânico de que aquelas cenas de verdadeiro horror pudessem se repetir com eles, a iniciativa foi posta de lado. Também as ameaças feitas pelos policiais, na hora do crime, intimidaram os populares."
"Estudante de Psicologia na Universidade de São Paulo, era a responsável pela imprensa da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, com ativa militância no movimento estudantil dos anos 1967/68. Foi presa em 9 de novembro de 1972, na Parada de Lucas, Rio de Janeiro, em batida policial realizada por uma patrulha do 2º Setor de Vigilância Norte, após rápido tiroteio, em que morreu um policial.Após correr alguns metros e se esconder em vários lugares, Aurora foi aprisionada, viva, dentro de um ônibus onde havia se refugiado momentos antes.Foi torturada desde o momento de sua prisão, inclusive na presença de vários populares que se aglomeravam ao redor da cena. Aurora foi conduzida para a Invernada de Olaria. Lá, foi torturada nas mãos dos policiais do DOI/CODI e integrantes do famigerado “Esquadrão da Morte”.Aurora viveu os mais terríveis momentos nas mãos daqueles carrascos, que além dos já tradicionais pau-de-arara, sessão de choques elétricos, somados a espancamentos, afogamentos, queimaduras, aplicaram-lhe a “coroa de cristo”, ou “torniquete”, que é uma fita de aço que vai gradativamente sendo apertada, esmagando aos poucos o crânio.No dia 10 de novembro, Aurora morreu em conseqüência dessas torturas. Seu corpo chegou ao IML/RJ como ‘desconhecida’, pela Guia n° 43 da 26ª D.P.Após prendê-la e torturá-la, jogaram seu corpo crivado de balas na esquina das Ruas Adriano com Magalhães Couto, no Bairro do Méier (RJ). A versão oficial divulgada pelos órgãos de segurança era de que a morte de Aurora seria conseqüência de uma tentativa de fuga, quando era transportada na rádio-patrulha que a prendera. Ao tentar fugir, Aurora teria sido baleada e morta."
Os relatos e fotos acima foram tirados do ótimo arquivo do Grupo Tortura Nunca Mais. Existem outros relatos. Muitos. São centenas de jovens que pensaram que pudessem mudar o país e o mundo apenas com boas idéias e foram colidos por um trem chamado AI-5, o ato quarentão, que fez aniversário no último dia 13 de dezembro e que eu não podia deixar passar em branco. Muito se falam dos chamados "heróis contra a ditadura", como Gabeira, Gil, Caetano, Zuzu Angel, Ulysses Guimarães, Herzog, etc. De maneira nenhuma quero diminuir a importância de todos eles. Mas só quero lebrar as centenas de pequenos heróis que deram suas vidas e sobre eles pouco se fala. Eu tive um primo que foi preso e torturadíssimo no Doi-Codi, como já falei aqui. Do seu sofrimento, pouco se fala. Por isso acho esse arquivo do Tortura... uma importante forma de homenagear esses heróis esquecidos. Sobre a decretação do Ato em si, ainda me lembro da minha mãe preparando o jantar, enquanto assistíamos a novela Beto Rockfeller, sucesso na época, quando a transmissão foi subtamente foi interrompida para uma cadeia de rádio-televisão que mostrava a assinatura do monstro, aqui no Palácio Guanabara. Enquanto isso, várias pessoas já estavam sendo presas. No dia seguinte, minha madrinha Dinah, sábado 14, apareceu em nossa casa, no subúrbio do Lins de Vasconcelos, e ainda me lebro dela sussurrando para a minha mãe: "Parece que a partir de agora a coisa vai ficar feia." Em meus nove anos de idade, eu não entendi porque elas falavam tão baixo, pois nossa família sempre foi barulhenta. Mas a partir de então, teríamos que falar baixinho certas coisas. Hoje, isso é um passado distante. Hoje, podemos gritar tudo o que quisermos. Só precisamos aproveitar melhor esse privilégio. Anote aí: É um ônibus chamado Tristeza  Esse é o melhor meio de transporte para se coroar com chave de ouro uma farra gastronômica em Porto Alegre. Mas vamos começar do início. Antes do Natal precisei ir á Porto Alegre, por questões familiares. Já falei aqui, neste post de 21 de outubro de 2007, que a capital gaúcha não é turística, embora tenha locais belíssimos. E é pecaminosa, pois lá, como em poucos lugares no país, podemos nos entregar ao pecado da gula. Na verdade, a gastronomia portalegrense vai muito além das churrascarias e se conseguir as dicas certas, o turista pode conhecer lugares incríveis. E praticar outros pecados além da gula: A InvejaBem, comecei justamente por uma churrascaria, que inclusive foi comentada no referido post. É a Barranco ( www.churrascariabarranco.com.br/), que desde 1969 funciona na avenida Protásio Alves, 1578, Petrópolis. O grande barato da casa, além da carne divina e do atendimento fantástico, é que ela manteve o pequeno bosque que existia no local e por lá está a parte externa, dando um ar de "churrasco na casa de um amigo", sem a fumaceira normal em casas do gênero. Os preços não são tão mais salgados do que uma churrascaria famosa no Rio ou em Sampa. Senti uma inveja horrorosa dos portalegrenses. Avareza (isso ainda é pecado nesses tempos de crise?)
Era uma tarde muito quente em POA e rumamos(eu, a Cristina - minha prima -, e um grupo de amigos) para o Mercado Municipal, bem no coração da cidade. Antigo e conservado, é um dos locais mais charmosos da cidade e um velho conhecido meu. Sempre que vou a Porto Alegre, arrumo um tempo para sarandar em seus tumultuados corredores. Gosto muito do restaurante Naval, onde a comidinha parece feita pela mamãe e os preços são mixuruquinhas. Avareza? Sim, porque eu sabia o que ainda teria pela frente. Mas dessa vez, já com o estômago devidamente forrado, fui atrás de algo mais refrescante. Uma salada de frutas cairia muito bem. Acompanhada de sorvete, muito mais. Nunca havia experimentado tal mistura. Geralmente aos cinqüenta anos não se está mais disposto a novas experiências. Mas isso não vale comigo. E bastou a dica da dupla dinâmica...ops, digo, gastronômica, do blog Destemperados, para eu ir conhecer a tal Banca 40, no primeiro piso. O lugar é apertado, cheio e com aspecto meio bagunçado, típico de lanchonete de mercado. À primeira vista você fica em dúvida se entra ou não na filinha que parece sempre existir ali. Mas posso lhe garantir que se você decidir não entrar e provar o copão de salada de frutas com sorvete de creme, por menos de R$ 6, você vai se arrepender por sete vidas. Só não repeti porque ainda queria ter estômago para outras aventuras gastronômicas. IraQue me perdoe a Blanche Debois, personagem do clássico Um Bonde Chamado Desejo, por ter mexido em sua célebre frase, mas sempre dependi das gostosuras de estranhos e do Centro pegamos o tal ônibus chamado Tristeza para o ponto final. Como não conhecíamos o local, preferimos não ir de carro e táxi com bandeira dois, nem pensar! Mas o onibuzinho deu pro gasto e nos deixou próximo à rua Armando Barbedo, 257, onde fica o Armazem e Bristô Marchy - mais uma dica dos Destemperados. Ataquei sem piedade uma torta de banana que chamar de manjar dos deuses seria modestia. A Cristina atacou uma coisa de chocolate chamada Mousse Janaína. Chamo de coisa poque nem sei descrever aquela maravilha. Fiz a besteira de pedir um pedaço e quase que imediatamente quis outro. Irada a Cris se recusou a me dar e antes que saíssemos em luta corporal, decidimos dividirmos mais um pedaço. Foi um vexame, um escândalo! Se fôssemos famosos, certamente seria matéria de papparazzi. Gostei da decoração do local e os preços não estupram o seu bolso. Achou tudo isso um exagero? Então veja essas fotos e resista se for capaz de pegar o primeiro vôo para POA. Preguiça Você acha que ficou poraí? Humpf! Os gulosos são persistentes. De lá, fomos ainda para Ipanema, ali pertinho. Não, toda essa comilança não me enlouqueceu. Ipanema é um bairrozinho simpático à beira do Guaíba e é justamente ali, no 1380 da avenida Guaíba, que fica a Mercearia Guahyba(merceariaghahyba.blogspot.com), onde os Destemperados juraram que eu não iria me arrepender de ter ido. O local é muito simpático e você encontra tudo que você precisa para satisfazer o seu desejo por doces. Mas nos contentamos apenas com um sorvetinho Häagen-Dazs. Saímos de lá tão tristes de preguiça, depois de tanta devastação gastronômica, que nem esperamos o happy hour e nos sentamos em frente á praia para apreciar a morte do sol...
 Luxúria
Estava uma tarde tão linda que ainda tivemos pique de pegar um táxi e ir ver o espetáculo do sol nun passeio de barco pelo Guaíba...

Vale a pena nem que seja para ver...
Porto Alegre com ares de Manhattan. Vaidade Se lembra daquele filme em que o Nicholas Cage vai para Las Vegas decidido a beber até morrer? Bem, eu parecia disposto a levar às últimas conseqüencias e naquela noite ainda devorei uma calabreza na simpática filial da Torre de Pizza, na rua General Lima e Silva, coração da Cidade Baixa. Uma rua com ares da região dos Jardins, em Sampa, cheia de gente bonita e jovem, querendo ver e ser vista. Um bom lugar para se comer bem e papear num deck voltado para a rua. Preços igualmente simpáticos. De lá, a gangue partiu para terminar a noite calorenta na badalada Sorveteria Jóia (sem site), ali perto, no 441 da República. Já passava da uma da manhã e havia fila. A Cris já havia me previnido que era o melhor sorvete da cidade. Meio cabreiro, escolhi só uma bola de flocos. Mas quinze minutos depois, eu estava dando conta de mais duas. Era o melhor sorvete que exeperimentei na vida. Sem exagero. Assim como não é exagero também quando digo que Porto Alegre é uma das melhores para se comer, no Brasil. Mas depois dessa farra, eu joguei a toalha. No dia seguinte eu teria que ir cedo pra Floripa e não queria fazer feio na praia, afinal sou vaidoso. Aliás, nem tiramos fotos nossas porque tivemos vergonha de mostrar o estado em que ficamos. Quer uma razão para tanto exagero? Porque é só isso que se leva da vida. Nem que você vá pro inferno depois. Tá bom ou quer outra? Duas Antoninas é bom demais.
 Bem, depois de dias ensolarados no nordeste. O sabáico aqui se mandou para cinco dias em Buenos Aires. Nem vou falar na capital argentina. Tudo que eu tinha que falar já falei aqui e aqui.  Uma das coisas que deicidi fazer nesses meses que passei viajando, foi visitar alguns lugares que haviam feito a minha cabeça ou que não havia conhecido direito. Antonina foi um deles. Nessa volta, foi como conhecer uma segunda Antonina. A cidade histórica, no litoral do Paraná, é uma miniatura de Parati, aqui no Rio. Não tão badalada. Mas é possui a mesma tranquilidade e a uma arquitetura quase tão rica. E ótimos restaurantes. Esse aí de cima fica na Prainha, onde há outros. Come-se o barreado, prato típico, e saboreia-se um vistão de lamber os beiços.  Mais informações sobre Antonina, caia aqui, no site da prefeitura da cidade, que por sinal tem essa sede aí em cima. Infelizmente, a caminho das praias, a maioria dos turistas passa batido por essa cidade que é puro charme...      Aliás, o grande charme de se ir para o litoral do Paraná, é se pegar uma praia durante o dia e, depois, ir comer nos excelentes restaurantes da região do bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, à noite. Como eu fiz aqui, num post entitulado Estupradores de Pizzas. Se tiver sorte, pode até rolar uma lareirazinha. Já pensou? Conheço vários restaurantes em Santa Felicidade e todos os que conheci são bons. A maioria tem a comida italiana como forte. Dessa vez, eu quis fazer diferente e procurei um que fosse especializado em carnes. Achei entrando nesse aí em cima, Petit Chateau. Preço honesto, atendimento de primeira, estacionamento, boa localização(inicio da Manoel Ribas) e uma carne de avestruz inesquecível. Mais informações, mergulhe aqui.
 O primeiro dia do ano amanheceu com cara de bunda. Devido aos festejos, acabei indo dormir às 3 da manhã. Mas estava tão cheio de gás e adrenalina, que levantei na mesma hora de costume: cinco da matina.  Após o café, decidi cometer suicídio: peguei a bike e subi os trezentos metros, montanha acima até as Paineiras só para pegar uma ducha. É que me lembrei de uma duchinha natural que rola no meio do caminho das Paineiras que funciona assim como uma overdose de ânimo em qualquer corpo acabado. Aliás, tudo que precisamos para começar um ano. Me lembro que na minha juventude, a tal duchinha era a salvação durante uma ressaca exterminadora ou uma noitada assassina. Nas manhãs de verão costumava haver fila. Todos querendo experimentar os poderes milagrosos da tal duchinha gelada e forte em sua nuca.
 Mas isso foi há muitos anos eu não ouvia falar na tal duchinha milagreira há muito tempo. Será que ainda existia? Ou será que ela havia sucumbido ás práticas predatórias desta cidade pecadora?  E fui subindo, subindo, subindo, orando a Deus para que o meu suicídio não fosse em vão e a duchinha santa ainda estivesse lá para tirar farrapos humanos, como eu, da sarjeta. Então, eis que após um longo caminho através a floresta...
...lá estava ela. Fria, pesada, limpa e extremamente revigorante. Só quem já experimentou, sabe do que estou falando e pode entender todo o sacrifício que fiz para iniciar o ano totalmente energizado. No início você pensa que não vai suportar o peso da água no seu cangote, mas depois de alguns segundos você não quer mais sair mais dali. E quando sai, só pensa em tomar mais uma e mais uma e mais uma.
Quem não mora no Rio deve realmente experimentar. Não é preciso cometer suicídio. Vá de van, carro, moto, táxi. Mas ninguém deve passar por essa vida sem experimentar a duchinha. Before duchinha...
Cheguei um bagaço, com a cara indescritível de um suicida. After duchinha...
Nasci denovo. Pronto para encarar o que 2009 tiver de trazer.
A maioria dos cariocas não sabem da existência dessa duchinha, que considero uma das maravilhas dessa cidade que, me perdoem as outras, é especial. Qual outra cidade no mundo eu encontraria uma duchinha natural milagreira no meio de uma enorme floresta fechada, há poucos minutos do Centro da Cidade, cheia de mata nativa e micos passeando sobre sua cabeça de galho em galho? pois enquanto eu tomava essa overdose de energia, a cidade do Rio de Janeiro estava prestes a empossar seu novo prefeito. E espero sinceramente que ele seja como essa duchinha milagrosa e tire o nosso Rio dessa situação de abandono, que ele definitivamente não merece. E, mais uma vez, ao Rio, ao Eduardo Paes e a todos um 2009 nota mil!!!!
 - Só três vieram trabalhar hoje? Cadê o resto do pessoal? (...) - O quê? O baiacu está com crise do pânico? E o pintado? (...) - O quê? Foi internado com transtorno bipolar? Caraca, a Tainha está em licença maternidade! E o Linguado? (...) - Como é que é? Saiu para um ano sabático? Puta merda, mas só tem vagabundo nessa porra?! Cadê a arraia, aquela vadia? E as tartarugas? Os turistas estão chegando, os turistas estão chegando! Depois não adianta reclamar pra aqueles ecologistas de merda!  Eu já havia deixado o pouco do estresse que ainda resistia lá em Itaparica. E ainda passei uns dias em Macaraípe e Suape, que eu já conhecia.  Os dois lugares ficam perto de Porto de Galinhas - que particulamente detesto, por ser muito lotado de turistas e comerciantes gananciosos. Aliás, ambos se merecem. A impressão é que Maracaípe e Suape estão há centenas de quilômetros do tumulto de Porto.  Praias vazias, áqua quentinha, o vento nordestino lhe fazendo uma massagem. Horas e horas jogados numa areia, compreendendo o verdadeiro significado da palavra "vida". Como era baixa temporada, os preços estavam bem convidativos. E ainda tive a sorte de encontrar gente que sabia tirar da vida o que ela tem de melhor. E isso é contagiante...  Roberta, Marlon e Leandro. Gente da melhor qualidade e inesquecível. Depois de um mês na Europa, o sol nordestino era tudo que eu precisava.
Vendo o estrese passar láááááááááááá longe. A impressão era de que não terei estresse nos próximos cinqüenta anos. Eu precisava e merecia isso.
 E depois, foi só pegar a estrada novamente. Por que ainda tinha muito chão. Isso mesmo! Quando em agosto passado eu falei que iria tirar uns meses viajando para repaginar a minha vida, não estava brincando.
 Dizem que há uma crizesinha rolando, é verdade? E quero aproveitar para desejar que essa última foto reflita a imagem de um 2009 maravilhoso que está por vir para todos nós. Dificuldades sempre estão incluídas no pacote, mas que sejamos fortes para enfrentá-las. Feliz 2009 para todos! Recife, Boa Viagem, 6h05m Saiu tudo pelos poros e na urina. Ah, só me estressei com a maré. Ela andou meio atrasada todos os dias. Puta merda! Nem na maré a gente pode confiar mais.  Preste bem atenção nesta esquina. Parece uma esquina comum em um bairro de classe média baixa, em qualquer capital brasileira.  Mas não é. Talvez, essa seja a esquina mais famosa da nossa música popular.  Estamos falando da esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no pacato bairro de Santa Tereza, Belo Horizonte. Nessa esquina, há cerca de uns quarenta anos, um grupo de jovens boêmios e músicos, sem grana para programa melhor, ficavam ali, sentados no meio fio, tocando violão, cantando e sonhando alto. Eles se auto-denominaram Clube da Esquina e esse acabou sendo o título do histórico álbum lançado pelo Milton Nascimento e Lô Borges, em 1972. Já contei a linda história que cerca esse trabalho e a triste história que esse disco representa para a minha família neste post de janeiro de 2007, ano em que o trabalho completou 35 anos de existência. É um dos trabalhos mais famosos da nossa música.  E a prefeitura da cidade justamente fez essa homenagem ao grupo e está na parede de uma das casas da tal esquina. Assim que cheguei da Europa, precisei ir à capital mineira para resolver problemas pessoais e não resisti em satisfazer o desejo antigo de conhecer essa esquina tão famosa. Acredito que pouca coisa tenha mudado desde que Milton e sua turma ali se reuniam. Senti certa emoção.  Depois, me mandei para Diamantina...       Era a última cidade história que faltava conhecer. Congonhas, Mariana, Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Sabará. Conheço todas. Amei Diamantina. Amei o seu astral, os seus restaurantes, o seu povo extremamente acolhedor e alegre, sua boemia e sua comida. Tudo. E com o astral da cidade mineira e com a benção deste padre aí da foto que desejo a vocês e aos seus familiares... UM NATAL FELIZ, REPLETO DE PAZ E ALEGRIA!!!
  Music Playlist at MixPod.com
  Estão abertas as apostas. A foto acima é a entrada de: A) um teatro; B) uma estação feroviária; C) uma repartição pública; D) um hotel; ou E) Um mercado onde as atrações principais são frutas e legumes?
 O Mercado 24 de julho, na zona portuária de Lisboa, é um exemplo de que Portugal é um país que valoriza o requinte até nas coisas mais cotidianas. Isso, fruto de seu passado de Coroa Portuguesa. Já se foi o tempo em que o turista só viajava atrás de belezas naturais e compras. Hoje em dia, vence quem conseguir criar roteiros alternativos. Aqui no Brasil, por exemplo, Florianópolis tem prais belíssimas, mas sempre que por lá apareço, reservo um tempo pra curtir o seu Mercado Municipal. Por outro lado, aqui no Rio, é cada vez maior o interesse de turistas em conhecer favelas. Loucura? Turista antenado sobe em favela, se ela for uma das características do lugar que está conhecendo. E também faz compras no mercado público, sim, pois ele quer entrar em contato o máximo possível com o dia-a-dia da cidade, pois é através do seu cotidiano que se conhece melhor um lugar.  Praias? Lisboa tem algumas nos seus arredores (como a do Guincho, na foto acima, e sobre a qual já falei no último post).  Mas turista moderno tem sede de apreciar uma a arquitetura portuguesa, que apesar de não ter o meso requinte de Londres ou Paris, também tem o seu valor...  ...ou será que esse prédio da prefeitura de Sintra não faz bem aos olhos?
 E esse do Museu de Etnologia e Arqueologia, em Belem?  Mas Portugal também quer ser moderna, sem perder o link com as suas tradições - o que é uma tendência no mundo todo. Um exemplo é esse terraço aí embaixo, na subida para o bairro do Alfama, uma das áreas mais antigas da cidade, onde, à tarde, funciona um bar tipo lounge e á noite são promovidas raves com o melhor da música eletrônica internacional. Ás vezes, essa tentativa de ser moderno soa tão confusa, como a vitrine dessa loja no Chiado. Os portugueses só começaram a ser modernos após entrarem no Mercado Comum Europeu,no sanos 90. E temos que levar em conta que, até 1974, o país enfrentou décadas de governo militar, que transformou Portugalna nação mais atrasada do continente.  Mas os ares de modernidade estão, por exemplo, no metrô de Lisboa, que funciona muito bem. Aliás, as coisas funcionam relativamente bem por lá. E devido às semelhanças que existem com o Brasil, além da língua, ficamos com a impressão de que Portugal é o que o Brasil seria se tivesse dado certo. É o como gostaríamos que o Brasil fosse. E volto a dizer: moderno, mas sem perder o contato com suas tradições, como essa leiteria/cervejaria, bem no Centro da cidade. E é disso que o turista gosta, essa diversidade, esse contraste que aumentam o charme de qualquer cidade. Nós temos sede disso. O Monumento dos Descobridores, bem ao lado da Torre de Belem, veio me lembrar que fomos colonizados pelos portugueses. Antes de conhecer esse país, eu tinha a imagem equivocada de gente tacanha que me olharia de cima à baixo, com a superioridade de quem, de certa forma, foi o responsável pela minha existência. Mas uma das coisas que mais me maravilharam em Portugal foi justamente o carinho que os portugueses têm pelos brasileiros. Embora não sejam modelo de simpatia, seus olhos brilham e um sorriso logo se abre quando nos apresentamos. E o que um turista pode querer mais? O Monumento dos Descobridores fica às margens do Tejo, de onde partiam muitas das embarcaçõs que partiriam pelo oceano à fora, em busca de novas colônias.  Hoje, são os milionários que enchem o rio nos dias de verão.  Além das piadas, ouvi muita gente dizer que o mal do Brasil era ter sido colonizado pelos portugueses. Sempre desconfiei. E agora, após conhecer Portugal, vejo que isso é uma grande injustiça. Se o Brasil não deu certo é culpa nossa. Os portugueses nada têm a ver com isso. E quer saber? Eu sinto até um certo orgulho por ter sido colonizado por um povo tão pacato, educado, lutador e receptivo.  E vou confessar: assim como havia acontecido em Londres, bateu uma deprê na hora de deixar essa cidade fantástica. E uma enorme vontade de voltar um dia. Sintra
 Lisboa é linda. E como se não bastasse, ainda fica bem perto de Sintra. Há um pouco mais de meia hora. E mais: você pode ir de trem, meio de transporte pouco usado no Brasil. Há anos eu não andava de trem e só isso já valeu a visita. A gente até chega a torcer que a viagem seja mais longa. Mas a viagem é curta e rápida e logo chegamos a esta cidade encravada na serra. Surgida na idade média, Sintra foi dominada durante anos pelos Mouros, que do alto desta torre aí em cima, ficavam de olho na aproximação de algum invasor. Um dia, eles deram bobeira, pois a cidade foi finalmente retomada.  Dizer que nos sentimos realmente na Idade Média seria clichê. O que me impressionou mesmo foi o excelente estado de conservação...  ...E também, lógico, o que vemos lá de cima. Sintra é cercada por uma vasta área verde, onde se escondem castelos e construções dos tempos da monarquia. Por isso é considerada uma das cidades mais românticas da Europa.  Taí o Palácio da Pena que não me deixa mentir...   Sintra é para ser visitada com calma. Se for possível, passe algumas noites em uma pousada ou nos hotelzinhos da região. Sua alma irá ficar eternamente grata.  Como fica há poucos quilômetros do litoral, Sintra é varrida por ventos constantes. Portanto, o verão é a melhor época para visitá-la e curtir os seus detalhes com calma.  Cascais
 Há vinte minutos de Lisboa, de trem, Cascais é a praia da maioria dos lisboenses. Mas recomendo que se vá de Sintra, para se curtir a linda descida da serra.  Como fui no finalzinho do verão, a cidade estava mais tranqüila. Não sei, não. Mas acho que nos meses de férias deve rolar ali uma muvuca da boa. É uma espécie de Buzios de lá. Para os paulistas, seria assim como uma Ilha Bela. Só que muito mais antiga e infinitamente mais charmosa...   Há restaurantes legais e um comerciozinho para a mulherada se esbaldar. O mar é calmo, mas a temperatura da água...é de bater o queixo.  Quem não quiser virar a noite em Cascais, sugiro que só volte á noite pra Lisboa, para aproveitar o final de tarde que é inesquecível.Cascais seria um balenário badalado, como muitos que temos aqui no Brasil, só que com o charme e o conforto de uma cidade de serrada. Até lareiras algumas pousadas têm. Quer charme maior do que você pegar uma praia pela manhã e curtir um vinhozinho à noite, à beira de uma lareira, num bom restaurante, em Sintra. Este é o charme que descobri entre essas duas cidades fantásticas, que são puro charme...  ...ou não? 
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